Thursday, 31 December 2009

Como é difícil ficar adulto...

"Querida mãe, querido pai, não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado. Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado. Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como "eu gosto de você". Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la. Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto. Amo vocês, seu filho, Caio". E como é difícil ficar adulto...

[Caio F.]

Wednesday, 23 December 2009

what do you like about England?

This week someone asked me what I didn't like about England, and straight away the answer comes: the weather! Then this same person asked me what I liked about it, and as funny as it may sound, I don’t think anyone has ever asked me that. I guess most people come here to work or study and they continue to idealize their homes as the perfect place, and England as this cold place with ‘cold’ people that they had to face and that they’ll never have a passion for the country itself.

I’ve got to admit that this was sort of my feeling as well. I came here to fulfil a dream of living abroad, somewhere where its native language was English, and that's when the Queen’s island came along. I used to see here as just a cold place where I could not make friends easily, locals would never become my real friends, and I have to say, even after a year here, perhaps two, such feeling still persisted.

Well, back to the original question, what I like about the UK? Hummm... It’s more about what it allowed me to live here, what this country has contributed to my personal growth. It is just precious what I have learnt about myself and the ones around me, the discovery of how much I love my parents which I didn’t have a clue of how powerful that could be before, that being alone is not feeling alone and feeling alone is not necessarily being alone, that friends are the angels we could not choose as family, that people come and go but some will always live in our hearts, that life sometimes closes doors but God always finds a way to open us a window, and that when things seem to be finally settling down life comes and changes it all over again, because that’s the cycle of life, and we must not see it negatively, some losses are just necessary.

I know that maybe any other country could have helped me experience all that, but in my case it was the cold island. I guess I’m starting to think that I actually didn’t choose the UK, for some reason, that I yet don’t know, the UK chose me. And hopefully, the best is yet to come.

[Karla]

Saturday, 19 December 2009

Laughing with

'Cause Regina Spektor is absolutely fantastic!

No one laughs at God in a hospital
No one laughs at God in a war
No one’s laughing at God
When they’re starving or freezing or so very poor

No one laughs at God when the doctor calls
After some routine tests
No one’s laughing at God
when it’s gotten real late
And their kid’s not back from that party yet

No one laughs at God when their airplane
Starts to uncontrollably shake
No one’s laughing at God
When they see the one they love hand in hand
with someone else and they hope that they’re mistaken
No one laughs at God when the cops knock on their door
And they say “We’ve got some bad new, sir,”
No one’s laughing at God
When there’s a famine, fire or flood

But God can be funny
At a cocktail party while listening to a good God-themed joke or
When the crazies say he hates us
and they get so red in the head
You think that they’re about to choke
God can be funny
When told he’ll give you money if you just pray the right way
And when presented like a genie
Who does magic like Houdini
Or grants wishes like Jiminy Cricket and Santa Claus

God can be so hilarious
Ha ha, ha ha

No one laughs at God in a hospital
No one laughs at God in a war
No one’s laughing at God
when they’ve lost all they got
And they don’t know what for

No one laughs at God on the day they realize
that the last sight they’ll ever see is a pair of hateful eyes
No one’s laughing at God
When they’re saying their goodbyes

But God can be funny
At a cocktail party while listening to a good God-themed joke or
When the crazies say he hates us and they get so red in the head
you think that they’re about to choke
God can be funny
When told he’ll give you money if you just pray the right way
And when presented like a genie
Who does magic like Houdini
Or grants wishes like Jiminy Cricket and Santa Claus
God can be so hilarious

No one laughs at God in a hospital
No one laughs at God in a war
(repeat)
No one’s laughing at God in a hospital
No one’s laughing at God in a war

No one’s laughing at God
When they’re starving or freezing or so very poor

No one’s laughing at God
(repeat)
We’re all “laughing with God”

Thursday, 17 December 2009

the hardest thing of all

"That is the hardest thing of all. It is much harder to judge yourself than to judge others. If you succeed in judging yourself, it's because you're truly a wise man."
[Antoine de Saint-Exupéry]

Wednesday, 16 December 2009

Tudo há de passar...

Noites longas,
dias sem graça.
Já tentei de tudo,
de reza à macumba;
mas a saudade não passa.

Deito vem o pranto,
me levanto o desencanto
Até piada tentei,
mas não teve graça.

Já tentei te substituir,
mas nada parece funcionar.
A dor que deixaste em mim,
parece nunca sarar.

Mas tem nada não,
sei que essa vida não hei levar.
Acredito que tudo há de passar!
Sou mais forte que as noites e os dias,
que qualquer macumba ou desencanto.
Vou fazer da vida um teatro,
E assim re-achar seu encanto.

[KG]

Sunday, 13 December 2009

Can love end?

Well, what about us?
“Love is gone!”,
we say.
If it is really gone,
it never love was.

Then, if we feel so,
I can only ask you one thing,
remember me as I will remember you:
a love such as in childhood,
- intense and pure.

One of those
that even after adulthood,
and all the different paths followed,
there's still enough love
to wish each the other
intense and pure
happiness.

[KG]
"E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros."
[Caio F]
"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva".
[Caio F]

Sunday, 29 November 2009

German Market



'cause it might have been isabel's last pregnant night out.
Here comes Alice!! Or Gabriela!

Saturday, 28 November 2009

Brazilian dinner


gringaida cantando Ana Julia!! =D

Monday, 23 November 2009

Até quando vale a pena lutar por um amor?

Muitas vezes, vivemos relacionamentos difíceis, que nos causam muito mais tristezas, decepções e dores do que alegrias e satisfação. Mas, por algum motivo que nem nós mesmos sabemos qual é, insistimos em manter essa relação. Teimamos em tentar de novo, nos agarramos em palavras que não correspondem com a realidade nem com as atitudes tomadas pela outra pessoa. E assim, confusos e perdidos nesta sensação entre o amor que gostaríamos de viver e o que realmente estamos vivendo, não sabemos o que fazer!

Convencidos de que amamos a outra pessoa, nos enchemos de forças e coragem para lutar por ela. Mas, logo depois, percebemos que não há reciprocidade, que a pessoa não está disposta a lutar, a tentar de verdade, a cumprir o que promete e, então, vemos nossas esperanças se diluírem e a nossa dor aumentar ainda mais. Algumas pessoas adoecem, entram em depressão, sentem-se desmotivadas, afastam-se dos amigos, perdem até o emprego por causa de uma relação que mais parece uma tortura, esmagando sentimentos e desejos.

Neste momento, por mais que não queiramos ouvi-la, a pergunta se repete em nossa alma e exige uma resposta: vale a pena continuar? Vale a pena insistir? Será que existe a possibilidade de conquistar essa pessoa definitivamente?

Enfim, creio que a resposta não seja tão objetiva, especialmente porque não podemos prever o futuro com tamanha clareza. No entanto, esta é, sem dúvida, a hora de olhar para nós mesmos e nos respeitarmos, nos valorizarmos e, acima de tudo, nos amarmos. Não tenho dúvidas de que se não fizermos isso, a outra pessoa também não fará. Mas se, ao contrário, decidirmos nos reconquistar, lutar por nós mesmos, enxergarmos o que temos de bom e nos reerguermos, haverá uma saída. Ou seja, ganharemos força e discernimento para descobrirmos a resposta certa: se vale a pena ou não!

Se valer, estaremos prontos para exigirmos o que queremos desta relação, mostrando à pessoa que merecemos ser amados, respeitados e valorizados. E ela, se realmente nos amar, estará disposta a nos dar o que merecemos.

Mas se não valer, estaremos prontos para abrir mão deste relacionamento que não nos tem trazido nada de bom, que tem servido apenas para nos deixar angustiados e desesperados com tamanha indecisão, incerteza e incoerência.

Então, se você estiver vivendo um relacionamento que tem lhe causado mais dor do que alegria, eu sugiro que você se faça algumas perguntas e seja sincero consigo mesmo. A primeira é: você realmente ama esta pessoa? Se a resposta for não, então nem precisa responder as próximas questões. Mas se for sim, então pergunte-se: tem dado o melhor de você para tentar salvar a relação? Depois, avalie: a pessoa amada está disposta a salvá-la também? As atitudes dela demonstram um verdadeiro amor ou expressam indiferença, incompreensão e desrespeito?

Caso ambas estejam dispostas a se reconquistarem, é bem provável que consigam. Mas se só você estiver disposto a isto, o melhor a fazer é colocar um ponto final nesta história, pois um relacionamento se compõe de dois corações e nunca de apenas um!
Talvez, um dia, esta pessoa esteja pronta para viver esta relação e volte a lhe procurar, mas por enquanto, os fatos estão mostrando que não dá mais! Lembre-se que uma pessoa se apaixona por outra por causa de suas qualidades e depois, com a convivência, aprende a aceitar os seus defeitos. Então, cuide de você, expresse mais as suas qualidades, melhore seus pontos fracos, supere suas limitações e torne-se uma pessoa apaixonante.

Não desperdice a sua vida insistindo numa relação que não lhe faz crescer, que não torna você uma pessoa mais consciente e mais inteira. E nunca se esqueça que o Universo lhe dá exatamente aquilo que você acredita que merece! Portanto, trate de se valorizar e, assim, terá certeza absoluta de que você merece muito mais...

[Rosana Braga]

Thursday, 19 November 2009

"Tente. Sei lá, tem sempre um pôr-do-sol esperando para ser visto, uma árvore, um pássaro, um rio, uma nuvem. Pelo menos sorria, procure sentir amor. Imagine. Invente. Sonhe. Voe. Se a realidade te alimenta com merda, meu irmão, a mente pode te alimentar com flores. Eu não estou fazendo nada de errado. Só estou tentando deixar as coisas um pouco mais bonitas."

[Caio Fernando Abreu]

Tuesday, 17 November 2009

Ah, o outono...

"Não, não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomada com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocada por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardarei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto - meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão morenos que, esboçados à sombra, mal se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentida, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha."
[Caio F.]

Monday, 16 November 2009

Conhece-te a ti mesmo

E se eu disser que cansei?
Cansei dessa vida séria
e agora quero ser malandro.
O que dirão?

Quero boemia,
quero poesia,
quero arte;
até meu rim sucumbir.

Quero amar,
quero ser amada,
quero me jogar na vida;
até meu coração se ir.

Quero ser amiga,
quero ter amigos,
quero segurar na tua mão;
até todos acreditarem na força da amizade.

Quero pão,
quero trabalho,
mas nem só de pão e trabalho quero viver.

Mas e agora, o que dirão?

Que sou louca,
que sou pobre,
que a bossa já passou?
Que não sou filha de Gandhi,
nem de Chico,
nem de Vinícius.

Mas o que é que tem?

Quero mesmo é sonhar!
Sonhar que posso ser Sócrates,
Conhecer-me a mim mesmo
e assim conhecer o universo e os deuses.

- Karla Guedes

Thursday, 12 November 2009

Does money bring happiness?

"It's a kind of spiritual snobbery that makes people think they can be happy without money".
[Albert Camus: Algerian-French author, philosopher, and journalist who was awarded the Nobel Prize for Literature in 1957]

Sad, but true.

Wednesday, 11 November 2009

Só mais um pouco...

Todos os dias nosso corpo morre um pouco.
Todos os dias nossa alma renasce mais um pouco.
E pouco a pouco vamos tentando equilibrar as perdas e os ganhos.
[Karla Guedes]

Saturday, 7 November 2009

the poetry within

Falling

Just an ordinary girl.
Nothing too special.
Like all other fighters
that survive in this jungle.

she tries to make it
without hypocrisy
but in the company of
openness and understanding.

Full of beliefs,
she goes – unaided,
not prepared at all
like all others – a human
Being....

Finding her passions
in things, in people,
in life.
But as quick as a blink
it can all go away.

Except for a big whole
where she keeps falling,
falling into an uncertain hope.
Hope of life being what’s been dreamt:
a fulfilled journey.

- Karla Guedes

Wednesday, 4 November 2009

Promessas de Casamento

Promessas de Casamento

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento a igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre. "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?" Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:

- Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
- Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
- Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
- Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
- Promete se deixar conhecer?
- Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
- Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
- Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
- Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
- Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros.

- Martha Medeiros

Tuesday, 20 October 2009

Lost in translation: A life in a new language

" 'identities are reconstructed and life stories are retold' in the process of learning an additional language in a new cultural context" (Palenko and Lantolf, 2000 on Eva Hoffman, 1997). This comment confirms what I've been experiencing, that with every language we learn and with every culture we live in, a different self is born, in addition to our monolingual selves. "This language [English] is beginning to invent another me" (Hoffman again).

Monday, 19 October 2009

"Dá-me a tua mão desconhecida que a vida está me doendo e eu não sei como falar - a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas."
[Clarice Lispector]

Monday, 12 October 2009

um pouco de mim...

Vou tentar de vez em quando postar algumas coisas que escrevo.
Deixo aqui aberto às críticas e sugestões, afinal, a poesia, assim como nós seres humanos, estamos sempre em busca de melhoras e aceitacões.
Não tenho por meio desta nenhuma pretensão, mas só de expor um prazer íntimo. Mas quem sabe, um dia fazê-lo bem?

Asas ao avesso

Tenho asas que são negras,
que não conseguem volitar.
Uma pele marcada,
que parece não querer sarar.
Meus cabelos não são claros,
muito menos encaracolados,
tenho o sangue dos mortais.
Não tenho lágrimas feitas de chuva,
iguais aos outros não eternos.
Vou solitária, plena e intensamente
em busca do horizonte radiante.
Mas,
me sinto tão cansada!

Mas vou seguindo,
criando meus santos e minhas rezas,
sou dona do mundo de ninguém.
Sou um anjo ao avesso!
Questiono meu destino,
as pessoas e a vida.

Sigo caminhando,
já que não posso voar.
Meu céu é o chão,
a terra que vai me guiar.
Será que estou perto?
Ou cada vez mais distante?

Hoje troco os dias pelas noites,
a reza pelo canto,
o choro pelo riso,
o silêncio pela fala,
a morte pela vida.
Sou um anjo ao avesso!
Ou será a vida que está ao avesso?

- Karla Guedes

Thursday, 8 October 2009

completamente insano, mas extremamente sábio

Mas eu tinha que ficar contente. E quando você quer, você fica. Comecei a ficar. Afinal, aquele podia ser o primeiro passo para emergir do pântano de depressão e autopiedade onde refocilava há quase um ano. Gostei tanto da expressão pântano-de-depressão-&-etc. que quase procurei papel para anotá-la. Perdera o vício paranóico de imaginar estar sendo sempre filmado ou avaliado por um deus de olhos multifacetados, como os das moscas, mas não o de estar sendo escrito. Se fosse bailarino, talvez imaginasse estar constantemente, em qualquer movimento, sendo esculpido? Ah, cada gesto, uma verdadeira apologia estética da forma pura.
Era engraçado. E bastante esquizofrênico. mas de repente o real tinha-se tornado bem menos retórico.

ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga?

Monday, 5 October 2009

mas por que não ficaria um pouco de mim?

Resíduo

De tudo ficou um pouco
Do meu medo.
Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rio
se os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade

Thursday, 1 October 2009

procuramos o que sentimos ou sentimos o que procuramos?

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."
[Caio F.]

Sunday, 27 September 2009

Domingo é dia de cinema


Jamie Foxx e Robert Downey Jr estrelam em um dos filmes mais legais que vi recentemente. The Soloist é baseado no livro The Soloist de Steve Lopez, que é baseado na verdadeira estória de Nathaniel Ayres, um músico talentosíssimo que desenvolve esquizofrenia e passa a morar na rua. The Soloist é acima de tudo uma lição de amizade e amor ao próximo.

“I've never loved anything the way he loves music.” - Steve Lopez

http://www.youtube.com/watch?v=vrrLJT4YS9I

P.S.: Essa semana voltam as aulas então toda a loucura de estudo adcionado ao trabalho deve voltar. Esse ano em especial visto que vou ter que escrever minha dissertação. mas estou bem empolgada de estar bem busy, vamos só torcer para que eu dê conta.

Monday, 21 September 2009

Caio F.

"Está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva
se houver vento,
ou se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa postae gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair"

(Caio Fernando Abreu)

Wednesday, 16 September 2009

Porque ela é até hoje uma das melhores artistas que já existiu...

"Eu só digo o que penso. Só faço o que gosto. E aquilo que creio. E se alguém não quiser entender e falar. Pois que fale. Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe. E se alguém interessa saber. Sou bem feliz assim. Muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim." (Maysa)

Wednesday, 2 September 2009

AUSÊNCIA

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

Carlos Drummond de Andrade

learn something everyday


Tuesday, 1 September 2009

A Primavera (o Meu Amor Sozinho)

Tim Maia. Compositor(es): carlos Lyra E Vinícius De Moraes

O meu amor sozinho
É assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste se sentir saudade
É que eu gosto tanto dela
que é capaz dela gostar de mim
acontece que eu estou mais longe dela
do que a estrela a reluzir na tarde
Estrela, eu lhe diria
desce à terra, o amor existe
e a poesia só espera ver nascer a primavera
para não morrer
Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade
É que o meu amor é tanto
Um encanto que não tem mais fim
no entanto ela não sabe que isso existe
É tão triste se sentir saudade
Amor,eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ah! quem me dera eu pudesse ser
a tua primavera e depois morrer

Monday, 31 August 2009

Fernando Pessoa

Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer
Nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
Nos mostrar a importância da vida.

Sunday, 30 August 2009

Ando meio Maysa esses dias...

Demais
Maysa
Composição: Tom Jobim / Aloysio de Oliveira

Todos acham que eu falo demais
E que eu ando bebendo demais
Que essa vida agitada
Não serve pra nada
Andar por aí
Bar em bar, bar em bar

Dizem até que ando rindo demais
E que conto anedotas demais
Que não largo o cigarro
E dirijo o meu carro
Correndo, chegando, no mesmo lugar

Ninguém sabe é que isso acontece porque
Vou passar minha vida esquecendo você
E a razão por que vivo esses dias banais
É porque ando triste, ando triste demais

E é por isso que eu falo demais
É por isso que eu bebo demais
E a razão porque vivo essa vida agitada
Demais
É porque meu amor por você é imenso
O meu amor por você é tão grande...
É porque meu amor por você, é enorme
Demais

http://www.youtube.com/watch?v=ERhHeWL3j3o

Do amor [Paulinho Moska]

Não falo do amor romântico, aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento. Relações de dependência e submissão,paixões tristes. Algumas pessoas confundem isso com amor.Chamam de amor esse querer escravo, e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida,explicada, entendida, julgada. Pensam que o amor já estava pronto,formatado, inteiro, antes de ser experimentado. Mas é exatamente o oposto, para mim,que o amor manifesta. A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído,inventado e modificado.O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita. O amor é um móbile. Como fotografá-lo?Como percebê-lo? Como se deixar sê-lo? E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine? Minha resposta? O amor é o desconhecido. Mesmo depois de uma vida inteira de amores,o amor será sempre o desconhecido,a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão. A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação. O amor quer ser interferido,quer ser violado, quer ser transformado a cada instante. A vida do amor depende dessa interferência. A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,decidimos caminhar pela estrada reta.Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,e nós preferimos o leito de um rio,com início, meio e fim.Não, não podemos subestimar o amor não podemos castrá-lo. O amor não é orgânico. Não é meu coração que sente o amor. É a minha alma que o saboreia.Não é no meu sangue que ele ferve. O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.Sua força se mistura com a minha enossas pequenas fagulhas ecoam pelo céucomo se fossem novas estrelas recém-nascidas. O amor brilha.Como uma aurora colorida e misteriosa,como um crepúsculo inundado de beleza e despedida,o amor grita seu silêncio e nos dá sua música. Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor,se estivermos também a devorá-lo. O amor, eu não conheço. E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo,me aventurando ao seu encontro. A vida só existe quando o amor a navega. Morrer de amor é a substância de que a Vida é feita. Ou melhor, só se Vive no amor. E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.
http://www.youtube.com/watch?v=_tT8yymopjo&feature=PlayList&p=5370CA707D611D64&playnext=1&playnext_from=PL&index=6

Desperate Housewives

"Everyone breaks the rules now and then, never thinking for one second they might get caught. But if they do, they simply ask for forgiveness. And most of the time, they receive it. But some acts are so wicked they demand only our condemnation. How do people avoid such a face? Well, the trick is knowing which rules are made to be broken and which rules are not".

Saturday, 29 August 2009

Quando chorar...

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."
Caio F.

Friday, 28 August 2009

"Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada. Daqui há pouco você vai crescer e achar tudo isso ridículo. Antes que tudo se perca, enquanto ainda posso dizer sim, por favor, chegue mais perto."
(Caio Fernando Abreu)